::: Textos Lidos por AC em seus shows

 

MOTIVO
Texto depois de "O Cristo de Madeira" (Toda Manhã)
MÃO EMBAIXO DA BLUSA
PRA MIM É IMPERFEIÇÃO
Desculpa
Mon Animal
Amor Pelos Desfechos
Quase
Alfredo é Gisele
Só de Sacanagem
Poema de Benjamin Constant
Poema de E.E.Cummings


Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

Texto lido depois de "O Cristo de Madeira".
A próxima canção vai pra você que tem um porta retrato do filho ao lado do computador, com folhas atoladas na segunda gaveta, que não acredita em nada mais pra não forçar a esperança a acreditar em você. Que entrou nesse show talvez por acidente, ou por curiosidade; que mal passou os olhos pelo palco e viu que não era com você. Peço que fique mais um pouco pra descobrir realmente que não é com você. Nada disso é com você!
E tudo pode vir a ser. É com você que nunca está satisfeita com a altura da cadeira, mas não sabe como girar a manivela. A você que passou a vida disciplinado desespero...Segura a bolsa!
Do lado do quadrinho, e é suave pra olhar de canto. A você que está aqui, e não se resolve porque não é aqui que está! Mas dentro daquilo que procura.
Alguns procuram um endereço, outros um sentido.
A você que não duvida ao assinar o nome, mas troca invariavelmente a data.
A você que em toda manhã regressa do seu mais profundo e ninguém repara o seu esforço pra subir a superfície.
A você que parece sombra quando a água passa, que parece água quando a sombra assenta.
A você quero dizer...Eu desapareço em você!
Autor: Carpinejar (adaptado p o showq N9ve)


TEXTO NA ÍNTEGRA
TODA MANHÃ

A você, que tem um porta-retrato do filho ao lado do computador, com folhas atoladas na segunda gaveta, que não acredita em nada mais para não forçar a esperança a acreditar em você, que entrou neste livro talvez por acidente ou por curiosidade, que mal passou os olhos pela primeira linha e viu que não era com você, peço que fique mais um pouco para descobrir realmente que não é com você. Nada disso é com você; e tudo pode vir a ser.

É com você, que nunca está satisfeita com a altura da cadeira, mas também não sabe como girar a manivela, que diminui os passos para escutar o bambu plagiando a chuva, que falo.

A você, que gostaria de ser mais percebida, mais elogiada, mais viva, que ninguém nota o vestido novo, o cabelo cortado, que chega ao trabalho pensando que causará outra impressão, e o espaço vai repetindo o dia anterior.

A você, que cuidou dos irmãos pequenos, que comprava cigarro para o pai e leite para a mãe, que teve que pular a janela para sair com os amigos.

A você que não está satisfeita com o emprego, com os hábitos, com o número das calças, com o guarda-roupa, com o guarda-chuva, que espera as próximas férias como um domingo prolongado, que gostaria de dormir mais e ser penteada pelo vento antes de acordar.

A você, cheia de expectativas, que se diplomou e pensou que tudo estaria resolvido, que se casou e pensou que tudo então estava pronto, que teve um filho e pensou que tudo estava chegando. Não a conheço, muito menos sei o que lhe aconteceu na infância, qual foi o primeiro namorado, a primeira transa, o primeiro choque, o primeiro porre, o primeiro do primeiro amor, o primeiro do último amor; é justamente a você que começo a escrever dentro de sua desistência.

A você, que nunca pensou que o riso também precisa de aquecimento para não se machucar em rugas, que deseja ler de manhã e viver o que se lê de tarde, e que não lê de manhã e nem vive de tarde, e sobra a noite para fazer de noite.
A você, que é uma promessa de cheiro, de chá, que coloca perfume nos pulsos e no pescoço, que tem receio de chorar onde não se chora, de falar o que não se deveria, que se controla e se autocensura para não se entregar.

A você, que passou a vida a disciplinar o desespero, que segura a bolsa perto do quadril, que é suave para olhar de canto.

A você, que está aqui e não se resolve, porque não é aqui que está, mas dentro daquilo que procura. Alguns procuram um endereço; outros, um sentido.

A você, que escuta o sangue e não entende.

A você, que quer explicações para não se contentar com relatórios, para não se apaziguar em brincadeiras, que não usa relógio para não ser infiel à aliança, que repara as laranjas germinando abelhas na hora do almoço.

A você, que não duvida ao assinar o nome, mas troca invariavelmente a data.

A você, que em toda manhã regressa de seu mais fundo e ninguém repara o seu esforço para subir à superfície.

A você, que parece sombra quando a água passa, que parece água quando a sombra senta; a você quero dizer: eu desapareço em você.

(Fabrício Carpinejar).


MÃO EMBAIXO DA BLUSA

Pare de me escutar
Eu acredito no que eu canto
Porque o que eu canto é muito verdadeiro
É o que ha de inteiro num colar de ostras
Sem perola dentro
A gente fica tentando transformar o mundo e vai mudando o mundo
Pra transformá-lo, transformá-lo, transformá-lo...
No que é
E as vezes eu fico pensando
Que eu nao quero ser deusa
Eu nao quero ser diva
Nem musa
O que eu quero
Sabe o que é
A sua mao
Bem aqui debaixo da minha blusa...


PRA MIM É IMPERFEIÇÃO

(Ana Carolina)

Pra mim é imperfeição estar suspenso
Em cada vão da terra um tédio imenso
Todo milagre, toda maravilha torna mais fácil a minha solidão
E todo esplendor pra mim é vão
Porque eu não sou perfeição
e também não sou nenhuma maravilha


DESCULPA – TEXTO ANA CAROLINA
(Adaptação unindo trechos das obras do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar e do poeta russo Boris Pasternak)
Fonte: Internet

“Você me diz que eu te olho profundamente.
Desculpa, tudo que vivi foi profundamente.
Eu te ensinei quem sou, você foi me tirando os espaços entre os abraços, guarda-me apenas uma fresta.

Eu que sempre fui livre, não importava o que os outros dissessem.
Até onde posso ir para te resgatar?

Reclama de mim, como se houvesse possibilidade
De eu me inventar de novo.

Desculpa, desculpa se te olho profundamente, rente à pele.
A ponto de ver seus ancestrais nos seus traços,
A ponto de ver a estrada antes dos teus passos.

Eu não vou separar minhas vitórias dos meus fracassos!
Eu não vou renunciar a mim; nenhuma parte, nenhum pedaço do ser vibrante, errante, sujo, livre, quente.

Eu quero estar viva e permanecer te olhando profundamente!”

DESCULPA – ANA CAROLINA
(Poema lido na Turnê Dois Quartos)
Fonte: Internet

“Te olho nos olhos
E você reclama
Que te olho muito profundamente
Desculpa
Mas tudo que vivi
Foi muito profundamente.
Eu te ensinei quem sou
E você foi me tirando
Os espaços entre os abraços
Guarda-me apenas uma fresta.
Eu que sempre fui livre
Não importava o que os outros dissessem
Até onde eu posso ir para te resgatar?
Reclama de mim
Como se houvesse possibilidade
De eu me inventar de novo.
Desculpa
Desculpa se te olho profundamente
Rente à pele
A ponto de ver seus ancestrais nos seus traços,
A ponto de ver a estrada
Onde ficam seus passos.
Eu não vou separar minhas vitórias
Dos meus fracassos,
Eu não vou renunciar a mim
A nenhuma parte
Nenhum pedaço
Do meu ser vibrante,
Errante,
Sujo,
Livre,
Quente.
Eu quero estar viva.
E permanecer te olhando profundamente.


MON ANIMAL
(Elisa Lucinda)

Eu a vejo quase todas as manhãs. Não é exatamente bonita. Aliás ela é de uma feiúra estranha como se carregasse uma boniteza espalhada em si, nos gestos e não nos traços.exatamente. Não importa. Importa é que a vejo acompanhada permanentemente pelo cão.
Um pastor alemão com cara de bom companheiro. É o que é. Eu vejo.
Olha-a muito, encaixa seu focinho entre os joelhos dela, brinca com ela, gane querendo dengo. Ela também,essa minha vizinha de uns quarenta e vividos anos, brinca de não-solidão com esse cachorro específico: gosta dele, ri: não Duque, assim, não, deixa o moço, Duque me espere, não vá na minha frente assim, cuidado com o carro menino. Ele a olha como quem agradece. E vão os dois, não em vão, pelas ruas de Copacabana sob o sol, felizes que só vendo. Eu vejo.
Ela é camelô, nos encontramos no elevador e eu – Vocês se divertem tanto, é tão bonito – E, nos conhecemos na rua. Ele olhou pra mim bem nos meus olhos. Eu estava trabalhando. Vi logo que era um cão bem cuidado fisicamente mas faltava-lhe carinho. Deixei minhas bugigangas (elavende coisas que querem imitar jóias antigas) por não sei quanto tempoe fiquei agachada na calçada na Avenida Nossa Senhora só namorando ele. Decidimos qdo ele viveria comigo. Naturalmente. Tudo aconteceu: “naturalmente”, ela frisou, como se quisesse dissipar de mim qualquer sombra de suspeita de um possível roubo. Noutro dia no mesmo elevador, ela com seu carrinho de balangandãs, eu e Duque.
O elevador apertado e ela continuou femininamente a conversa do último elevador nosso. Tenho certeza que ele é de câncer. È muito sensível. Só falta falar, né Duque?...ele mão é lindo! Eu disse: lindíssimo. E você que signo é? – Ah, sou capricórnio, mas com ascendente em câncer, combina sim.
Eu vejo Duque lambendo as mãos dela, as magras mãos cujos dedos ela oferecia de propósito e distraidamente à mordida dele. Eu olho admirando receosa por conta dos afiados dentes dele.
Quase não entendo de cães. Você tem medo...ô não ofenda ele: Duque entende pensamento e não gostou do que você pensou. Jamais me morderia, Jamais me trairia. Né Duque? Senti o pensamento de Duque latindo que jamais a trairia. Achei bonito. Chegamos. Tchau, bom trabalho, tchau Duque. Fui para a rua pensando longamente nos dois. Depois pensei nos mistérios da astrologia e perdi o fio do meu pensamento.
Ao final da tarde avistei pela janela Duque e Ângela indo ver o crepúsculo na praia. Depois vi os dois voltando sorridentes e caninos sob a noite estrelada: ela com fitas de vídeo penduradas ao braço, sempre conversando com ele. Tenho inveja de Ângela.
O animal que eu quero não mora comigo, não brinca mais, não me telefona, não me advinha os pensamentos, não me acompanha ao crepúsculo, não gane querendo dengo, nossos signos parecem não mais combinar. O animal que quero pensa demais e por isso não passeia mais comigo. E o pior: não me lambe mais.


AMOR PELOS DESFECHOS
(Elisa Lucinda)
(DVD – Ana Carolina – Estampado)

Chuvinha fina porém decidida, entro no táxi mandado a me buscar e que me aguardava à porta de casa. Já há uns quinze minutos.
- Boa noite, aonde vamos? Perguntou o motorista.
- Não sei, o senhor não sabe?
- Essa é boa: é a primeira vez que pego uma passageira que não sabe para aonde vai! Vou te contar.
- Pêra lá, o senhor foi contratado para me levar para uma corrida para a qual já foi até pago...e não sabe?
- Não senhora. A empresa apenasmente me bipa e eu venho no endereço. Certo?
- Bom, o que eu sei é que vamos para São Conrado na casa de Ana Carolina, aquela cantora.
- A cantora? Essa mulher é fera! E como é que a gente chega lá?
- Ana Carolina! Eu já de celular em punho falando com a própria! Como é que eu faço pra chegar até aí...etc e tal...patatipatata...
- Sabe que essa menina canta muito bem. Aliás, essa música que está tocando aí dela na novela é uma versão boa, mas a primeira foi a do José Augusto.
Pois não é que Marcos era esse o nome dele! Sacou de um cd, o melhor de José Augusto e o colocou no excelente som de seu carro imediatamente! Seguimos na estrada ouvindo breguice em silêncio. Cada um de nós fazendo suas comparações, suas escolhas. Ele preferiu a dele e eu disparadamente a dela, e a conversa vai até quando éramos pequenos, cada um no seu mundo, e o gosto pela música, já aparecendo na infância e coisa e tal. A conversa seguia boa até que ele perguntou:
-Será que Ana Carolina sabe que existe outra versão dessa música?
- Não sei, mas eu vou contar a ela.
- Jura?
- Juro.
- Vai dizer que eu mostrei o disco e tudo?
-Claro, vou contar a estória desde a hora em que ainda não sabíamos para onde íamos.
A chuva caía lá fora e São Conrado me parece mais longe e mais desconhecido. A gente erra ali, entra num edifício não sei que conforme a própria dona havia me dito pelo telefone, parecia ser num outro bloco mais adiante.
- Quer dizer que a senhora vai contar pra ela o assunto dessa nossa corrida!
Que eu sou fã dela e tudo?
- Claro que eu vou!
- É a gente fica pensando... Será que ela vai gostar de saber?
- Talvez ela já até saiba. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisaé outra coisa.
- Mas dá vontade de ser um mosquinha e assistir tudo o que vai acontecer lá quando você contar.
Não é que eu seja curioso não, sabe?
- Não, eu sei. Você uma espécie de enxerido científico, eu entendo.
- É, essa é a tristeza do motorista de táxi.
- Qual a tristeza Marcos?
- A gente nunca sabe o final. É sempre assim, essa agonia: Moço pelo amor de Deus, toca pro Santos Dumont
Que eu tenho que pegar esse avião que sai em vinte minutos. Lá em São Paulo um cara vai estar me esperando no aeroporto e de lá nós iremos para uma reunião que dependendo do resultado, eu vou poder me separar da Odete e casar com a Patrícia.. Eu nem acredito. Deus me ajude. Aí você pisa firme, toma até multa, mas deixa o cara no destino dele. E a parte deles com a gente só vai até “obrigado” ou “valeu” e a nossa com eles “até” ou “boa sorte”.
- E você fica pensando nos possíveis finais?
- Fico. Será que ele pegou o avião? Será que perdeu, chegou lá não havia ninguém esperando em Sampa porque ficou muito tarde e ele não pode resolver o negócio para se divorciar da Odete e casar com Patrícia, Meu Deus!
- Você tem razão. Porque você com seu serviço passa a ser um personagem na trama. Um personagem cuja ação é decisiva para o desfecho.
- Pois é. E quando a gente leva pessoa quase parindo? Ah, nossa senhora! Quando a gente chega lá e deixa a passageira e os parentes, ah...dá vontade de entrar no hospital, sabe?
- Sei.
- Saber notícia, esperar um pouco só para esticar o ouvido e escutar um marido dizendo: é uma menina como a mãe queria! Sei lá, eu falando assim pareço um cara intrometido...mas
- Mas não é. Você é um cara solidário, é diferente. Você se envolve com a estória do outro. Você tá ajudando o outro. Você considera a vida do outro. Você se importa com o outro. Sua curiosidade é uma certa compaixão pelo outro e quer acompanhar o desenrolar dos fatos depois que você o deixa.
- Você é psicóloga?
- Não, sou escritora e atriz.
- Ah, então também aprecia o roteiro da vida, né?
Se é. Vivo que nem você, pensando nos enredos. Agora eu to lançando um livro que chama “Uma escuta Passageira” que são algumas inúmeras estórias que os motoristas de táxi me contam. São maravilhosas. Isso dá a maior parceria pro meu pensamento.
- E o livro está no computador?
- Não, está aqui na pasta. Estou revisando e vou levar pra mostrar um conto que a Ana Carolina vai dizer na estréia dela.
- Deixa eu ver? É isso que eles chamam de originalidade?
- Ta falando com eles.
- Puxa, que honra! Que dia esse o meu! Aqui acontece de tudo. E se a gente contar parece mentira.
- Parece ficção sim.
- Bem chegamos. Acho que é aqui.
Ela disse o único prédio vermelho.
- Tchau, obrigada, bom trabalho.
- Tchau, Boa Sorte.
Nos despedimos no de sempre quando me voltei ainda sob a chuvinha já mais fina, eu já entrando no edifício, gritei:
- Marcos?
- Sim?
- Você quer saber o final?
Os olhos dele brilharam como os de uma criança que finalmente toca naquela bola querida.
- Claro que quero! É tudo o que eu quero!
- Então vem me buscar!


QUASE
(Sarah Vestphal)

Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase! É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escapara pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunta-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna. A resposta eu “sei” de cor, está estampada na distância e na frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “bom-dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor. Mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Para os erros há perdão, para os fracassos chance, para os amores impossíveis tempo de nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. No romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina incomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando...Fazendo que planejando...vivendo que esperando...Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.


ALFREDO É GISELE
(Elisa Lucinda)
(DVD – Ana e Jorge ao Vivo)

Sora vê, daqui do táxi a gente sabe é cada coisa. Sabe e aprende, aprende até a não ter preconceito. Eu vou dizer cada um tem o seu segredo, tem seu cada qual. Nem que seja um colsica de nada, no fundo todo mundo sabe que lá dentro tem uma verdade só dele que as vezes nem ele mesmo sabe.
Outro dia peguei um casal assim já de meia idade, bem apessoado, lá no centro, eles tinham ido vê um tal de uma ópera, sei lá. Já eram umas 11 e meia da noite, a gente veio bem até o Aterro, entramos em Botafogo e o trânsito emperrou. A mulher já azedou da hora e foi falando para o marido:
- Que trânsito é esse, quase meia-noite? Não é esquisito, Alfredo?
E o tal do Alfredo parecia um homem rico, mas não era fino, sabe? E também não gostava dela não. O cara era uma múmia. A resposta dele pras conversas da mulher tavam mais pra rosnado, sabe?
- Alfredo isso não é um absurdo? A gente aqui parado num trânsito quase de madrugada, não entendo, é estranho, hoje é sábado.Será que é algum acidente, Alfredo?
Aí o homem não dizia nada, e e acabei dando o meu pitaco:
- Madame simplesmente aqui, da licença, virou um lugar só de “homossexuais” e “mulhergay”. É cheio de barzinhos deles, a rua todas. Fim de semana ferve. Quem quiser ver homem beijando homem e mulher beijando mulher se esfregando todo mundo junto, é aqui mesmo.
-Você ouviu, Alfredo? Meu Deus, eles agora tem até bar pra eles, até rua? Não é um absurdo, Alfredo?
- Ô onça. cê me conhece, sabe bem como é que eu sou. Pra mim isso se resolve é na porrada. Se eu sou o pai, eu desço do carro e nem quero nem saber o q é que entortou, o que é que virou, não quero saber o que é cu e o que é fechadura, baixo o sarrafo na cambada! Eu, com sem vergonhisse, o sangue sobe. Eu viro bicho.
-Que isto Alfredo pára de falar essa palavras, olha o que o médico falou.
Alfredo é muito esquentado né motorisat?
Eu dei o meu pitaco:
- Oh madame, o negócio que ele tá falando é que nem que eu vi lá no filmeé uma metáfora. Ele não vai bater. Vai só ficar zangado.
-E o senhor sabe lá o que é metáfora? Fica aqui metendo o bedelho na nossa conversa aqui atrás.
-Eu sei o que é metáfora sim! Pelo que eu entendi, é assim: aquilo não é aquilo, mas é como se fosse aquilo. Mas não é. È como se fosse.Entendeu?
-Eu entendi, mas eu to chocada com essa libertinagem. Olha aquele homem. Alfredo, beijando outro homem, de bigode ainda. Alfredo! Olha Alfredo!
- E hoje ta até fraco. Eu falei. Hohe nem tem os “general”.
- Que general?
- General é aquelas mulheres de coturno que parece mais assim um macho. E o outro tipo de general é aquele homem transformista que é traveca, mas anda é na gillete mesmo.
- Tá ouvindo Alfredo? Que decadência Alfredo?
- E a gente vai ficar parado nessa merda, ó coisa?
Ele tratava a mulher assim.
- Calma Alfredo, não fica nervoso!
Isso é questão do nível das pessoas. A gente que tem...não é motorista?...A gente que tem um nível, a gente tem mais condições, temos que entender essa, essa, como é que eu digo Meu Deus!
- Putaria!
Falamos juntos, eu, ela e o tal do seu Alfredo.
- Cruzes Alfredo, olha lá aquela moça! Gente uma menina, dezoito no máximo, e a outra maiorzuda no meio das pernas da coitadinha. Fazendo sabe lá o quê! Tá vendo Alfredo aquela ali! Ali, Alfredo, aquela em cima do carro! Olha lá Alfredo, a mão da grandona na menina! Elas vão se beijar na boca, minha nossa senhora...
- Que trânsitozinho hein jararaca! A gente não vem aqui mais em Botafogo nunca mais, ta ouvindo ô coisa?
- Mas Alfredo olha lá, tem duas meninas se beijando, tá beijando, ta beijando Alfredo! Alfredo! Alfredo! Ela parece...Alfredo! Alfreddo é Gisele! Alfredo é a nossa filha!
- Filha da puuuutaaaaa...
E desmaiou, o tal doutor né desmaiou, enquanto a jararaca da mulé saiu porta afora de sapato na mão atrás das duas e eu pensando não quero nem saber, vou encostar o carro aqui mesmo e espero o resolver, que uma corrida dessa eu não vou perder que eu não sou bobo e nem sou rico. Num é ruim de eu ir embora, hein?
Aí eu fiquei naquela siuação eu com um cara que era um ex-valente todo desmaiado no banco de trás parecendo uma moça e a mulé dele pisando forte que nem um macho igual a um general, indo lá atrás da filha, quer dizer: tudo trocado e eles reclamando da menina.
Se eu pudesse eu ia lá defender a moça, mas eu não posso já que o negócio é de família, né? E eu não tenho preconceito não, mas é isso que eu tava falando pra senhora: daqui a gente sabe cada coisa!
Mas é cada um com o seu cada qual.


SÓ DE SACANAGEM
(Elisa Lucinda)
(DVD – Ana e Jorge ao Vivo)

Meu coração está aos pulos
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar, malas cuecas que voam entupidas de dinheiro,
Do seu dinheiro, do nosso dinheiro, que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós,
Para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade
E eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
È certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros , venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro, a luz é simples, regada no conselho simples do meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”. “Esse apontador não é seu, minha filha”.
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até hábeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:
Mais honesta ainda eu vou ficar
Só de sacanagem!
Dirão “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” e eu vou dizer não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.
Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.
Dirão “È inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.
E eu repito, ouviram? Imortal!
Sei que não dá pra mudar o começo mas, se a gente quiser,
Vai dar pra mudar o final!


POEMA DE BENJAMIN CONSTANT
(DVD – Ana Carolina – Estampado – Um instante que não pára)

“Todo sentimento
Precisa de um passado para existir
O amor não
Ele cria como por encanto
Um passado que nos cerca
Ele nos dá a consciência
De havermos vivido anos a fios
Com alguém que a pouco era quase um estranho
Ele supre a falta de lembrança por uma espécie de mágica.”

 

POEMA DE E. E. CUMMINGS
(DVD Ana Carolina – Estampado – Um instante que não pára)

“Eu gosto do seu corpo.
Eu gosto do que ele faz.
Eu gosto de como ele faz.
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo,
Dos seus ossos, e de sentir o tremor firme e doce de quando eu lhe beijo.
E volto a beijar.”